Hoje, a ACEP (Associação para a Cooperação entre os Povos) lança o livro-agenda perpétua “52 histórias”.
“Num livro ilustrado evocando uma agenda perpétua, ao longo de 52 semanas sucedem-se 52 histórias, rostos, direitos, geografias de coragem, dignidade, mas também de privação… e de injustiça.”
Dei o meu contributo com a história dos três mosqueteiros (que podem ler mais abaixo) e com a história de uma dissidente norte-coreana.
Neste projecto participam:
Adelino Gomes, Adriano Gomes, Adriano Miranda, Alain Corbel, Alex Gozblau, Alexandra Lucas Coelho, Alexandra Prado Coelho, Alexandre Conceição, Alfonso Armada, Ana Cristina Pereira, Ana Dias Cordeiro, Ana Filipa Oliveira, Ana Grave, Anton Demisov, António Jorge Gonçalves, António Marujo, António Pedro Ferreira, Bernardo Carvalho, Carlos Narciso, Claire Malen, Daniel Blaufuks, Dylan Martinez, Eduardo Lobão, Enric Vives-Rubio, Faranaz Keshavjee, Fernanda Almeida, Fernando Jorge, Gonçalo Cunha de Sá, Helena Oliveira, Isabel Gorjão Santos, Isabella Balena, Javier Martinez, João Carlos Rosário, João Maio Pinto, João Paulo Baltazar, Jorge Gonçalves, Jorge Silva, José Milhazes, José Pedro Tomaz, Khaled Abdullah Ali Al Mahdi, Lina Lonet Delgado, Lúcia Crespo, Lucília Monteiro, Luís Castro, Luísa Meireles, Marcel Steger, Margarida Santos Lopes, Maria João Belchior, Maria Kowalski, Maria de Araújo Barbosa, Mariana Palavra, Marta Jorge, Miguel Carvalho, Nuno Ferreira Santos, Paola Rolletta, Patrick Arnoux, Paula Borges, Paulo Buchinho, Paulo Moura, Paulo Nuno Vicente, Paulo Ricca, Pedro Moita, Pedro Rosa Mendes, Philippe Matsas, Ricardo Alexandre, Rita Colaço, Rita Vaz da Silva, Rodrigo Saias, Rui Rasquinho, Sofia Branco, Sofia Lorena, Stefania Mascetti, Thierry Roge, Valter Vinagre, Victor Ângelo, Vincenzo Sassu.

Os três mosqueteiros de Bulenga
Rita Colaço
Patrick traz a fruta na mão. William, o saco de arroz. Sam, o feijão. E ervas para o chá, quando o feijão e o arroz se esgotam no orfanato. Patrick, William e Sam chegaram sozinhos à idade dos vinte. Na terra-berço do Nilo, a cada 12 segundos, há uma pessoa que morre de Sida. Para trás, o vírus deixa milhões de meninos órfãos.
E lá vão eles, Patrick, William e Sam. Apressados. Saem, de novo, para os trilhos das bananeiras que refrescam a terra vermelha de Bulenga, encharcada de calor. Ali, no cruzamento, procuram uma boda-boda ou uma matatu. De mota ou carrinha pão-de-forma, chegam em 20 minutos ao ghetto de Kampala, assim baptizado pelo músico Bobby Wine. Aqui, ele é o senhor Ghetto President.
Cola-se à pele um cenário de cores de chumbo. Debaixo deste telhado de fome caminham muitas crianças. E dormem quase invisíveis por entre de chapas de zinco e caixas de cartão, que fazem a vez de cama. Apertada. A sujidade e as doenças também são inquilinos.
Também há uma amostra de ribeira. Fétida. Este canal serve para lavar roupa, urinar e beber água. Há abusos e desconfiança entre estes meninos e meninas que enfiam o nariz num saco de plástico com cola. Aqui cheira a esquecimento.
Outras crianças rezam ajoelhadas no chão. Rezam como quem agradece. Hoje, Patrick, William e Sam conseguiram juntar xelins e trazer alimento. Um saco com papa de farinha e feijão. Outro saco com água. É o primeiro aconchego do estômago em muitos dias de jejum.
Aqui também há filhos da guerra, no Norte do Uganda. Um grupo de rebeldes é comandado pela loucura de um homem. Joseph Kony diz combater em nome de Deus e rapta crianças que transforma em soldados. São meninos que ou matam ou morrem. No ghetto de Kampala moram vidas – ainda curtas – que escaparam à tortura. Patrick, William e Sam têm casa para dar a alguns.
Não usam capa nem espadas. Nunca ouviram falar de Athos, Portos ou Aramis. Mas são tão ou mais inseparáveis. Até já têm nome de grupo: “Raising Up Hope for Uganda”.
Hoje, os três mosqueteiros regressam a Bulenga com mais uma criança. Estão ali 40. Já se ouvem os gritos das brincadeiras.
O menino sufoca o galo num abraço. Aquela menina lava o vestido no alguidar. Outro menino desenha na folha gasta à sombra do muro inacabado. Esta menina já dá mama ao bebé. E este menino chupa cana-de-açúcar, doce como a jaca que entra pelo portão de ferro do orfanato. Patrick traz fruta na mão.